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Ateísmo dentro do debate político: é coisa de esquerda ou de direta?

O ateísmo deve tanto a direita quanto a esquerda! Leia e entenda.

Esse artigo de opinião não será um dado definitivo, pois ele não se propõe a isso, mas espero que ele possa direcionar a você leitor(a) sobre a relação entre ateísmo e política.

Primeiramente, a parte mais complicada: o que é esquerda e o que é direita? Após a queda do Muro de Berlim (09 de novembro de 1989) ficou mais difícil classificar o eixo esquerda-direita, pois não existe mais a contraposição do modelo liberal/democrático/capitalista americano em oposição ao modelo social/autoritário/comunista soviético. No Brasil de hoje – onde a Lava Jato ainda é uma operação ativa – e que sucessivos escândalos de corrupção eclodem na vista de todos, a política ganhou força nos discursos. E em decorrência disto, muitas pessoas ainda julgam ser de esquerda ou ser de direita como algo fixo, do tempo da Guerra Fria. Mas as coisas mudaram…

Podemos dizer que ser de esquerda ou ser de direta envolve o discurso do indivíduo em uma determinada área (social, econômica, artística, etc) e de como ele é colocado. Seu discurso pode ser considerado como liberal ou antiliberal, democrático ou ditatorial, individualista ou coletivista, intervencionista ou anti-intervencionista, etc. Portanto, cuidado com discursos engessados! Você pode muito bem se considerar de um lado e ter posições do outro lado

No Renascimento, com o retorno do humanismo e do antropocentrismo, isto é, colando-se não mais “Deus” como preocupação das invenções e ações humanas, mas sim o próprio homem, o ateísmo ressurge (pois ele existiu na Antiguidade clássica e foi abafado na Idade Média). O movimento Iluminista – composto por literatos, artistas, filósofos, cientístas e outros – se divide em duas posições: de um lado o ateísmo materialista, do outro, o deísmo (substituição da ideia de Deus pela Razão humana). De toda forma, os ideais do Liberalismo francês propagam-se tanto na Revolução Americana (1775-1783) quanto na Revolução Francesa (1789-1799).

Junto com as revoluções, ressurge a ideia da democracia e do secularismo, isto é, da substituição dos valores morais oriundos da religião por valores destituídos dos valores religiosos. Junto a isto surge a ideia de laicidade, ou seja, o Estado e a Igreja não compõem uma só unidade política, mas passam a gerir suas preocupações em separado, cada um mantendo sua área de atuação.

O Liberalismo francês marca a individualidade em uma época onde você era como nascia, o sobrenome que carregava e a posição social que sua família possuia. A obra Romeu e Julieta do inglês William Shakespeare coloca o romance de dois jovens entre suas famílias rivais em um momento que amor e liberdade não eram sinônimos ainda! Nesse sentido, o liberalismo foi e continua sendo uma marca registrada da modernidade, e isso é muito bom! Todavia, o economista alemão Karl Marx afirmou que a revolução francesa foi uma revolução burguesa…

A partir daqui podemos fazer uma leitura bem clara que causa confusão! O Liberalismo antes de Marx teorizar suas consequências era tido como movimento de esquerda, pois foi um movimento do chamado “Terceiro Estado”, isto é, do povo e da burguesia (que ainda não fazia parte das elites). E a partir da leitura de Marx, o Liberalismo francês é tido como de direita, pois a burguesia usou o povo para subir ao patamar que hoje ainda permanece! Marx – como vocês devem saber – foi o principal referencial da Revolução Russa e da antiga União Soviética. A ex-URSS perseguiu as religiões e pregou o ateísmo de Estado. Marx considerou que “a religião era o ópio do povo” e que a religião alienava os homens. Nesse ponto, caro(a) leitor(a), supondo que você seja ateu ou ateia, deva concordar com o “Carlos Marquinhos”, mesmo você não gostando do marxismo.

O ateísmo pode conversar com todos os lados, mas geralmente a esqueda é mais amigável ao ateísmo do que a direita em determinados momentos
Ateísmo entre dois lados

Quando existe a defesa do Estado Laico, por exemplo, esse discurso pode vir tanto da esquerda, quanto da direita. Mas como vimos acima, avaliar o espectro político depende de uma análise muito precisa e apurada dos fatos. O Brasil tem partidos de siglas e ideologias de uma lado, mas pregam políticas do outro. A exemplos rápidos temos o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) que tem uma ideologia de centro-esquerda, mas faz políticas neoliberais (direita) quanto o PT (Partido dos Trabalhadores) que tem um discurso de cunho marxista-leninista, mas fez política neoliberais tanto quanto o PSDB. Se você ficou confuso(a) é justamente por ter percebido que política é uma coisa complexa e não-binária.

Lembram do episódio onde o STF aprovou o ensino religioso confessional nas escolas públicas? Pois bem, muitos políticos apoiaram a decisão do Supremo e disseram que Laicidade tem a ver com ateísmo, e ateísmo é coisa de esquerda… Como você viu acima, essa relação está parcialmente equivocada!

Diante desses fatos, uma coisa fica clara: ateísmo deve tanto a esquerda quanto a direita. O que ocorre é que os tempos agora são outros! Vivemos em um mundo democrático, informatizado (globalizado) e – em sua maioria – laico. Quando vemos discursos que vão de encontro ao ateísmo, estes discursos são geralmente de direita. A Igreja Católica (e outras) tem uma posição geralmente conservadora, tido como de direita. Apesar que dentro da própria Igreja Católica exista movimentos de espectro político de esquerda. O mais famoso é a chamada “Teologia da Libertação”. O Papa Francisco tem opiniões tidas como progressistas pelas pessoas, por isso consideram que o Papa é de espectro ideológico de esquerda, tendo em vista o conservadorismo católico.

Felizmente, para nós ateus e agnósticos, ateísmo é uma coisa bem simples: a não crença em deus(es)!