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Determinismo e Liberdade

Determinismo

 

Existem posições nas narrativas mitológicas gregas sobre o “destino”. O homem antigo se vendo dentro de um caminho traçado não tinha responsabilidade sobre suas ações, pois o caminho a percorrer já estaria traçado pelo destino.
Os gregos começaram, mesmo que de forma tímida, a colocar a racionalidade em confronto com esse destino intransponível. Lendo sobre Édipo Rei você tem essa noção, pois Édipo – dentro do relato mitológico – teria fugido de todas as formas possíveis desse destino que o cercara, a saber, a morte do próprio pai por suas mãos e o amor consolidado em sua mãe. Mesmo o destino tendo se cumprido, Édipo tentou até o fim confrontá-lo! E assim vemos que o homem começa a questionar esse determinismo que nos diz o que somos, como iremos viver e como iremos morrer.
Determinismo seria, segundo dicionário filosófico, “a teoria segundo a qual tudo está determinado, isto é, submetido a condições necessárias e suficientes, elas próprias também determinadas” ¹. Coisas relacionadas “a prever o futuro de forma infalível” como destino, búzios, horóscopo, cartas ou qualquer outro método adivinhatório, são determinismos. E, além disso, dentro do cristianismo estamos presos a um determinismo, mas só falarei mais abaixo. Seguiremos o raciocínio com dois exemplos.
Exemplo 1: Eu sou muito “esperto” e resolvo fingir que tenho leucemia para pedir dinheiro para meu tratamento, confiando na boa fé das pessoas em me ajudarem. Depois que vejo que muitos se comoveram e percebendo que a “brincadeira” foi longe demais desminto publicamente a história e, após todo o alvoroço que ocorreu, me converto a uma igreja evangélica neo pentecostal e digo publicamente que a “brincadeira” foi coisa do demônio que me possuía e que, graças a tal Igreja, estou curado!
Exemplo 2: Eu sou um qualquer, revoltado com minha religião e, em um belo dia, “Deus” resolve aparecer diante de mim e dizer que as religiões que existem até aquele momento pregam em “Seu” nome em vão e são charlatãs! “Deus” pede que eu faça uma nova igreja que pregue a real palavra! E assim cria-se mais uma igreja!
Tanto no caso dos exemplos 1 e 2 eu tenho determinismos que são colocados propositalmente para esconder a liberdade. No exemplo 1, a pessoa que fez a pegadinha sabia dos riscos de cometer esse tipo de crime e de suas reais consequências, até porque o exemplo é baseado em uma história real de uma pessoa que sequer é deficiente ou tem problemas mentais, então segue-se o raciocínio que esta pessoa era consciente de sua escolha, isto é, uma pessoa livre! Então, para camuflar a sua falta de responsabilidade frente a sua liberdade de escolha a pessoa coloca a culpa no “Diabo”, pois ele é quem agiu daquela maneira, isto é, ele determinou minhas ações, não foi culpa da pessoa, pois ela não se governava, ou seja, não estaria consciente de seus atos.
No exemplo 2, o indivíduo que cria mais uma igreja (para ganhar dinheiro dos trouxas) faz uso de “Deus” para justificar sua escolha, alegando que ele agia conforme “Sua” vontade. Isto é, ausentando o indivíduo da responsabilidade e até de um eventual questionamento sobre sua atitude. Afinal de contas ninguém questiona as vontade de Deus, não é mesmo Moisés? Então mais uma igreja surge através de um determinismo sabiamente colocado para que o indivíduo não seja questionado e ainda angarie mais (contas bancárias) fiéis!

Liberdade

 

E o que seria liberdade? Para não ficar no senso comum, citarei aqui dois pensadores, um cristão, e outro ateu. “O filósofo iluminista francês Rousseau diz que só é possível ao homem ter um certo grau de liberdade se ele abrir mão da mesma visando o bem comum. O coletivo é mais importante, na visão rousseauniana, do que o individual” ². Já o também francês Jean Paul Sartre disse: “não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores justificações ou desculpas (…) o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer…” ³. Diante desse norte, vamos para nossas reflexões.
A Liberdade é uma condição do homem. Nós somos livres para escolher, mesmo nas piores situações e somos conscientes de nossa liberdade. Claro que existem fatores externos (leis, convenções, cultura, etc) e fatores internos (patologias, condições biológicas, etc) que podem interferir nas nossas escolhas, mas não nos retiram o poder de decisão, salvo raros casos como em estado de coma ou qualquer coisa que impeça o indivíduo de se manifestar. Dito isso, e colocando os exemplos acima em confronto com os conceitos de liberdade, vê-se que tanto os indivíduos dos casos 1 e 2 são plenamente livres e conscientes de suas escolhas, conhecem as consequências de seus atos! Consciência é a palavra fundamental aqui! Não existe liberdade sem consciência e visto que em ambos os casos a pessoa é perfeitamente sã, elas sempre serão responsáveis por suas escolhas! Quando eles citaram fatores externos (Diabo, Deus) estavam tentando retirar sua liberdade para justificar seus erros ou responsabilidades em nome de um determinismo, no caso, o religioso.
 Mas afinal: existe liberdade dentro da visão cristã? Segundo dizem existe e é o tal do livre arbítrio. Contudo, discordo dessa visão pelo simples motivo que: 1) Segundo a tradição cristã, “Deus” sabe de tudo, do início ao fim dos tempos, ou seja, tudo estaria escrito no “grande livro” que somente “Ele” teria acesso, 2) Deus é onisciente, isto é, ele sabe de tudo, mesmo antes de você tomar uma escolha. Se “Deus” sabe de tudo, e tudo está determinado dentro da visão “Dele”, então o que seria liberdade dentro do cristianismo? O livre arbítrio é ilusório e remete ao homem uma falsa sensação de liberdade. Não pode existir Liberdade em um Determinismo. Se eu serei fiel a “Deus” ou não, se eu irei pecar ou não, se eu fiz de bom grado e de coração e não visando interesses, nada disso importaria! Estou seguindo um destino, um caminho traçado que nem mesmo eu estaria consciente. Então não existe meios para se ter liberdade sendo cristão, nesses termos.
Mas como saber se sou livre? A resposta está na palavra consciência. Mesmo quando você é induzido a fazer algo, você tem consciência de que faz esse algo. Mas alguém poderia rebater dizendo “nem sempre”, mas aí é onde entra a Filosofia. Ao se fazer algo você poderia analisar a ação se lançando inúmeras perguntas tais como “Por qual motivo faço isso?”, “Seria isso necessário?”, “Tenho outra alternativa?”, “Porque fazer isto ao invés daquilo?”, “O que me levou a fazer isso?”. Dentro desse universo de perguntas e tantas outras nós acabamos percebendo as intenções por trás das escolhas através do uso da nossa consciência. Dizer que fez algo por “medo”, “cultura”, “religião”, “costume” ou outras coisas não lhe faz menos livre que outra pessoa, afinal de contas você tem consciência do porque faz tudo isso! Se você tem consciência, então você tem plenas condições de exercer a sua liberdade. Mas como nada é perfeito, assim sim você diria “mesmo sabendo que faço isso porque a bíblia manda, eu sou consciente de minha escolha, portanto sou livre”. Sim, o fato de você ter consciência já lhe traz a luz da liberdade, porém você estaria se ludibriando com um determinismo que em nada lhe manda: você faz porque escolheu, escolheu porque tinha consciência do que queria, logo você é livre. E o determinismo da “bíblia”, ou de qualquer outro fator, é uma desculpa para você se ausentar de culpa ou responsabilidade.
Citações e referências:

³ http://www.libertas.com.br/libertas/a-liberdade-para-jean-paul-sartre/

Texto de Hugo Jardel, Professor de Filosofia.

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