,

Por que me tornei ateu

o “testemunho” de Hugo Jardel, professor de filosofia e editor do Jesus Bêbado

there-is-no-god

Todos temos motivos para crer ou não crer em determinada entidade. As razões variam e sempre estão carregadas com algum sentimento pessoal. Por esse motivo que digo: só se torna ateu quem quer! E não adianta muito forçar: o estalo da mudança é pessoal! E em mim isso ocorreu, por isso resolvi compartilhar!

Variei entre o catolicismo, o “satanismo”, a Wicca, até perceber que eu era ateu. Mas esse transição é só para constar, não será meu foco. O foco aqui é o grande motivo que me levou a escrever isso: minha irmã. Minha irmã nasceu deficiente e eu não sabia o motivo. Cresci vendo minha mãe sofrendo em criá-la pois o autismo dela era um dos mais graves que a impedia de interagir com as pessoas, de conversar, e que lhe trouxe uma irritação frequente, além de problemas com seu sistema digestivo que era muito lento!

Eu não sabia nada sobre ateísmo até então, nunca ouvi alguém falar na possibilidade de “Deus” não existir e quiçá sobre o chamado “Design Inteligente”. Mesmo sendo de família católica, fervorosa, não cabia em minha mente tais questões. Apenas via os problemas que minha mãe passava diariamente por ter uma criança que nasceu deficiente e ia viver daquela forma até o seu último segundo. Lembro que minha mãe visitou “rezadeiras” (bem comuns aqui no Nordeste), e falou com pessoas diversas que alegavam que aquilo era uma prova da existência de “Deus” ou que minha irmã estava passando por uma provação juntamente com minha mãe, evidentemente a pessoa que mais sofria.

Eu rezava e ouvia sempre o dizer que “Deus escreve certo por linhas tortas”, mas aquilo sempre me incomodou! Depois de 27 anos de sofrimento minha irmã faleceu de parada cardíaca. Talvez pela série de problemas que ela vinha apresentando acumuladas ao autismo.

Agora vem as interrogações! Por que isso ser uma prova da existência de Deus? Outro ponto é: por que ela merecia sofrer? Por que todos da minha família tiveram que sofrer? Essas perguntas básicas aparentemente sem explicação hoje tem um norte (ainda está em estudos) que seriam os genes e fatores ambientais (estresse, complicações durante a gravidez, etc). Essa explicação não amenizaria meu sofrimento e o de ninguém, mas era a verdade. Naqueles tempos, sem internet e com a mesma “qualidade” que a TV nos apresenta ainda hoje, pensar diferente era quase assinar o atestado de revoltado e doido.

Hoje em dia com tantas informações que temos, parece engraçado o óbvio! É irritante quando vemos pessoas que parecem viver no século passado, crendo em lendas, superstições, magia, demônios, espíritos, etc. A verdade dói! Encarar a realidade é difícil! O conforto de “Deus” se faz compreensível nesses momentos! Ninguém ousaria dizer, por exemplo, a um doente em estado terminal de câncer que “Deus não existe”. O ser humano precisa de conforto além do mundo físico, além das possibilidade de compreensão humana, além da vida social e diária! A vida é uma prisão de angústias intermináveis.

Não que não possamos sentir alegria, mas alegria e felicidade são momentos, são passagens rápidas. A felicidade é sempre uma ausência da dor, como diria o filósofo Schopenhauer. Ou como cantava nosso querido Tom Jobim: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”.

Quando as pessoas fazem piada com ateus em momentos de angústia e sofrimento, ou onde a própria vida está sendo ameaçada ou em risco, fica evidente que “Deus” só serve como consolo, como solução ou como uma droga anestésica! Ninguém quer aceitar que a vida é essa angústia constante a que todos estamos sujeitos, independentemente de credo, cor de pele, idioma ou nível de pobreza (ou riqueza). Todos nós sofremos igualmente por termos consciência do que a vida pode nos proporcionar.

Isso não prova que “Deus” como uma entidade criadora e ordenadora do Universo não exista. Porém, para mim é claro e notório que se “Deus” existe, ele nada tem a ver com nossa vida, e se tem algo a ver como descrito no “Livro Sagrado”, é visivelmente incompetente. E nós, humanos, precisamos dele tal como uma criança precisa de um adulto por não saber o que tem além de um corredor escuro. E esse corredor escuro é a vida.

Dedico esse escrito a todas as criança que tem autismo.

Em memória de Natália Cynthia.