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Síndrome de Rafinha Bastos

 
Assistindo no Youtube o Rafinha Bastos sendo persuadido a pedir desculpas a posteriori no programa Roda Viva por conta da piada envolvendo a cantora Vanessa, reparei no discurso retrogrado e engessado daquela banca e os argumentos sendo usados um a um para tentar acusar o humorista de algo que ele sequer deveria ser acusado: fazer humor.

Não existe humor certo ou errado, existe humor aceito ou não dependendo das circunstância, da piada e do público em questão. Interessante ressaltar a postura do Rafinha sempre sereno e com a resposta na ponta da língua, afinal ali estavam vários representantes da mídia tradicional e da ideologia a qual defendem, aparentemente da classe burguesa brasileira. Mas onde entraria a tal Síndrome de Rafinha Bastos?

Não é novidade que o politicamente correto tem se alastrado nas casas brasileiras. Qualquer programa dos anos 90 de humor faria piadas que hoje não seriam aceitas, pois tratavam as coisas com um teor bem menos ofensivo, não digo dos humoristas, mas do público. Como disse no pequeno texto sobre o vídeo da Porta dos Fundos, o grande problema hoje em dia em que todos reivindicam direitos (lembrar dos deveres ninguém quer…) está relacionado com o conjunto de transformações tanto na política quanto na comunicação. Talvez um sociólogo consiga identificar melhor alguns aspectos sobre isso, entretanto certo mesmo é que as pessoas se ofendem hoje bem mais do que há pouco mais de 10 anos atrás. E sobre o humor, ou falamos sobre tudo, ou não. Não existe meio termo, afinal a arte serve para quebrar barreiras, fazer com que pensemos com um olhar diferente, ou explicite um pensamento que muitas vezes não assumido. Francamente, não sou à favor do estupro, e muito menos o Rafinha, mas porque não tirar sarro do estuprador por escolher uma mulher feia? Aí entra a questão: “estupro não tem graça!”, diriam as mulheres. Mas quem disse que a graça é o estupro? A graça consiste no pensamento do universo masculino. Até mesmo mulheres – em um momento de bebedeira ou total descontração – poderiam pensar: “…mas que mulher feia esse louco foi escolher!”. Admitir um pensamento como esse não é absurdo, absurdo não seria esconder o que você pensa? Não há pecado em pensar, muito menos é imoral.

Assumir as faces da humanidade talvez seja um trabalho não somente de filósofos, mas de vários artistas em várias esferas, e no humor não seria diferente.

Piadas tem o objetivo primário de fazer rir, o que vem em decorrência disso é responsabilidade de quem ouve, e não de quem conta. Apesar de existir responsabilidade sobre cada palavra dita, um humorista tem a tal licença poética para usufruir da ambiguidade das palavras e dos pensamentos. Talvez bem mais do que um escritor de novelas da Globo, por exemplo. Pois este tem um público geralmente conservador, de mais idade, e que não está no mesmo ritmo do público da internet, geralmente mais novo, bem mais inclinado ao novo, bem mais tolerante a piadas e memes. Rafinha nasceu na internet, tem um grande público graças a esse meio. Muitas vezes o que os telespectadores achem ofensivo, o público da internet somente achará graça, reproduzirá isso por alguns dias e esquecerá (a não ser que vire um meme).

Bem, evoquei a síndrome, mas apenas contextualizei. O que eu chamo de Síndrome do Rafinha Bastos nada mais é do que a reação pejorativa das pessoas com relação a qualquer coisa que seja de teor humorístico. Hoje em dia qualquer piada ou riso poderá desencadear um ódio incontrolável que muitas vezes nem tem razões para existir, razões essa do espectador, não do humorista. Sentir raiva de piadas como a que o Rafinha conta são perca de tempo; o que as pessoas deveriam levar a sério não é levado: pessoas que espancam mulheres não são vaiados nos cinemas, teatros; políticos corruptos são tratados como “doutores”, enquanto a corrupção que eles praticam deixam pessoas morrendo em hospitais sem médicos ou sem leitos disponíveis. Enfim, deu pra entender onde quis chegar?

O politicamente correto é burro, e o ódio está sendo destilado para as pessoas e sentenças erradas. Uma coisa é fazer piada com a nossa desgraça, outra é achar que essa desgraça de sociedade é normal.

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O Professor de Filosofia (formado pela UFPI) Hugo Jardel  e o Vinte e Dois da coluna Se é que você me entende, tentam trazer o bom hábito de leitura que muitos perderam ao entrar na Era Facebook com tirinhas e memes.

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