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Somos europeus ou seres humanos?

Europeus chamando brasileiros de macacos não me deixa chocado, afinal o “velho mundo” sempre se achou melhor em tudo e tem muito mais história registrada do que nós. Arquitetura, literatura, música, filosofia, e grandes contribuições da humanidade tem origem europeia, afinal o umbigo do mundo é lá, não é?

Sério, isso não me deixa chocado, agora ver brasileiro chamando brasileiro de macaco me deixa perplexo! O brasileiro não defende o seu país, pelo contrário, queríamos (a grande maioria) morar na Europa, porque lá as pessoas são educadas e não são como nós, descendentes de índios e negros africanos. Enquanto lá fora temos a imagem de um país preguiçoso, malandro, cheio de putaria e que vivemos na selva, ou melhor, que os animais ocupam todas as ruas das grandes cidades, e que somos bestas, tal como o Blanka do Street Fighter… O brasileiro insiste em reforçar isso sempre que possível. 

Apesar disso, somos um povo hospitaleiro, simpático e sorridente. Sim, somos! Não sei se o clima ajuda, ou se aprendemos a rir para não chorar perante a nossa desigualdade descarada, mas procuramos sempre sorrir e se divertir. E mesmo esbanjando simpatia escondemos o nosso rancor perante aqueles que têm vida melhor, se não nossos vizinhos ou artistas de TV, ou os estrangeiros sempre se dando bem, e nós, por sermos brasileiros, muito mal. É visível o nosso descontentamento, mas ele é histórico, afinal somos descendentes de índios, negros e portugueses… 
O índio não é visto como gente em nosso país. É quase um bicho, só que em formato humano, e antes que me apedrejem relembrem o recente episódio no RJ onde o Museu do Índio foi demolido para dar lugar a um estacionamento para a Copa de 2014! Isso é apenas um caso recente, outros descasos deste tipo acontecem diariamente, porém os governantes fazem vista grossa, e a população idem. 
Já os negros e seus descendentes ficam sofrendo um preconceito velado, o que é muito comum no Brasil. Não falamos “Que negra linda” ou “Que negro lindo”, mas são afirmações do tipo “Que morena!” ou “Peguei um moreno!”. Fazemos uso constante de eufemismos, pois podemos magoar outra pessoa! Ora, se sou negro porque dizer que sou moreno se sou negro? Eis que a carga semântica de negro no Brasil é tão obscura quanto um buraco negro… E todos se comportam de forma melindrosa, pois chamar um negro de negro é preconceito! 
E os portugueses? Ah, são europeus! Se eu for descendente de portugueses, ou italianos, ou alemães está ótimo! Afinal, são europeus! Esse paradigma que tudo o que vem da europa é bom é o maior problema que enfrentamos. Ninguém quer ser descendente de índio, ou de negro, mas sim de europeu. Por quê? Bem, talvez porque a história do mundo seja basicamente ditada pela Europa e estamos acostumados a ouvi-la como se eles tivessem o direito, nós não. De qualquer forma, Portugal só nos deu a sua “independência” visto que a coroa portuguesa estava fugindo da Europa e resolverem se refugiar aqui! Imaginem comigo: a coroa portuguesa, o topo da sociedade daquele país, estava se escondendo no Brasil! Portugal sempre ficou de canto no passado e no presente perante as grandes potências europeias, e esse desejo de fazer parte desse grupo de países sempre foi muito visível, e eis que herdamos de forma maldita o mesmo desejo: de sermos aceitos pela Europa! Claro, somos todos descendentes de europeus, índios e negros, mas o nosso sangue europeu, ariano, histórico, pulsa em nós e nos faz nos sentirmos menos importantes, menos qualificados, menos humanos… 
O brasileiro fruto de uma grande miscigenação étnica e cultural tem muito mais a oferecer ao mundo do que os europeus. O fato de termos vários pontos de vista históricos nos favorece! Disso temos que nos orgulhar! Pois mesmo com toda a carga negativa que o jeitinho brasileiro possui, esse mesmo jeitinho talvez seja o que nos faz não desistir perante as dificuldades, que nos faz ser solidários com todos que nos recebem e, além disso, que nos faz tratar um ser humano como outro ser humano, e não como um ser encéfalo. Eles podem ter inventado o futebol, mas nós o reinventamos, melhoramos e demos brilho caboclo, malandro de ser, ao frio europeu. Que não nos deem apenas bananas, mas toda a nossa riqueza, sangue derramado e orgulho dos nossos primeiros habitantes, da nossa fauna e flora roubadas até nos dias de hoje! Prefiro ser chamado a macaco com minha humanidade, do que de europeu desumano! 
Hugo Jardel, formado em Filosofia, gamer da era 16 bits que adora computador e usa Ubuntu.
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 O Professor de Filosofia (formado pela UFPI) Hugo Jardel  e o Vinte e Dois da coluna Se é que você me entende, tentam trazer o bom hábito de leitura que muitos perderam ao entrar na Era Facebook com tirinhas e memes. 

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